O que é a experiência? Nada. É o número dos donos que se
teve. Cada amante é uma coronhada. São mais mil no conta-quilómetros. A
experiência é uma coisa que amarga e atrapalha. Não é um motivo de orgulho. É
uma coisa que se desculpa. A experiência é um erro repetido e re-repetido até à
exaustão. Se é difícil amar um enganador, mais difícil ainda é amar um
enganado.
Desengane-se de vez a rapaziada. Nenhuma mulher gosta de um
homem «experiente». O número de amantes anteriores é uma coisa que faz um
bocadinho de nojo e um bocadinho de ciúme. O pudor que se exige às mulheres não
é um conceito ultrapassado — é uma excelente ideia. Só que também se devia
aplicar aos homens. O pudor valoriza. O sexo é uma coisa trivial. É por isso
que temos de torná-lo especial. Ir para a cama com toda a gente é pouco
higiénico e dispersa as energias. Os seres castos, que se reprimem e se
guardam, tornam-se tigres quando se libertam. E só se libertam quando vale a
pena. A castidade é que é «sexy». Nos homens como nas mulheres. A promiscuidade
tira a vontade.
Uma mulher gosta de conquistar não o homem que já todas
conquistaram, saquearam e pilharam, mas aquele que ainda nenhuma conseguiu
tocar. O que é erótico é a resistência, a dificuldade e a raridade. Não é a
«liberdade», a facilidade e a vulgaridade. Isto parece óbvio, mas é o contrário
do que se faz e do que se diz. Porque será escandaloso dizer, numa época
hippificada em que a virgindade é vergonhosa e o amor é bom por ser «livre»,
que as mulheres querem dos homens aquilo que os homens querem das mulheres? Ser
conquistador é ser conquistado. Ninguém gosta de um ser conquistado. O que é
preciso conquistar é a castidade.
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| Miguel Esteves Cardoso Créditos de Imagem |
Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República
Portuguesa'

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