Blog dedicado às coisas boas da vida, aos meus desvaneios, ao que me apetece realmente dizer sobre as coisas. Depois de escrever para outros projetos e sobre as mais variadas coisas, é chegada a hora de despejar tudo o que me aprouver.
Quem não dava a vida por um Amor? Miguel Esteves Cardoso
O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode
amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer.
Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa
vai andando.
Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil.
Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a
vida acaba por matar.
Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única
coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O amor. Vive-se sem paixão, sem
correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma
cama. É verdade, sim senhores.
Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão,
sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo,
impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro.
O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás.
Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo
ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde
estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás.
O amor é que fica quando o coração está cansado. Quando o
pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para
se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do
sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma
das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem
não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de
morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar?
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'
Como se faz uma Declaração de Amor? Miguel Esteves Cardoso
Mas então como se faz uma declaração de amor? Em papel
selado, na presença de um advogado. Por que não? As piores declarações são as
pífias e clandestinas, do género «Acho-te uma pessoa muito interessante». As
melhores são aquelas que comprometem quem as faz, que se baseiam em provas
capazes de serem apresentadas em tribunal, que fazem corar as testemunhas. As
declarações do tipo «Experimentar-a-ver-se-dá» nunca dão. É melhor mandar
imprimir 2000 folhetos e distribuí-los por avioneta à população, devidamente
identificados, do que um bilhetinho anónimo de «um admirador». As declarações
de amor têm de cortar a respiração de quem as recebe, têm de rebentar na cara
de quem as lê. O amor e o terrorismo são questões de objectivo, e não de grau.
Como estamos todos a zero, ninguém pode dar conselhos a
ninguém. Há séculos que as maiores cabeças do mundo procuram a frase perfeita
de apresentação. Há as deixas rascas, do género «Deixe-me adivinhar o seu
signo» ou «Não costuma cá estar às terças-feiras, pois não?». Há as deixas
pirosas, do género «Importa-se que eu lhe diga que você é muito bonita?» ou
«Posso só dizer-lhe uma coisa? O seu namorado tem muita sorte!». Depois, há as
deixas supostamente cool, do tipo «O meu nome é Max e eu toco sax» ou, mais
formal, «Muito prazer, Luís Bobone, toco saxofone». Ultimamente, a julgar por
recentes exemplos, é moda usar deixas crípticas, do género «Então sempre
conseguiu resolver aquilo?» ou «Importa-se de me segurar a bebida enquanto eu
olho para si? É que pode apetecer-me bater palmas» ou ainda (versão 1987) «Não
se importa de ficar aqui comigo um bocadinho enquanto o meu guarda-costas não
volta da casa de banho?».
Todo o amor é um engano. Trata-se é de nos enganarmos bem.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'
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| Miguel Esteves Cardoso - MEC Créditos de Imagem |
A Mulher Portuguesa tem um bocado de pena dos Homens de Miguel Esteves Cardoso
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| Miguel Esteves Cardoso Créditos de Imagem |
A mulher portuguesa não é só Fada do Lar, como Bruxa do Ar,
Senhora do Mar e Menina Absolutamente Impossível de Domar. É melhor que o Homem
Português, não por ser mulher, mas por ser mais portuguesa. Trabalha mais, sabe
mais, quer mais e pode mais. Faz tudo mais à exceção de poucas atividades de
discutível contribuição nacional (beber e comer de mais, ir ao futebol, etc).
Portugal (i.e., os homens portugueses) pagam-lhe este serviço, pagando-lhes
menos, ou até nada.
O pior defeito do Homem português é achar-se melhor e mais capaz que a Mulher. A maior qualidade da Mulher Portuguesa é não ligar nada a essas crassas generalizações, sabendo perfeitamente que não é verdade. Eis a primeira grande diferença: o Português liga muito à dicotomia Homem/Mulher; a Portuguesa não. O Português diz «O Homem isto, enquanto a Mulher aquilo». A Portuguesa diz «Depende». A única distinção que faz a Mulher Portuguesa é dizer, regra geral, que gosta mais dos homens do que das mulheres. E, como gostos não se discutem, é essa a única generalização indiscutível.
A Mulher Portuguesa é o oposto do que o Homem Português pensa. Também nesta frase se confirma a ideia de que o Homem pensa e a Mulher é, o Homem acha e a Mulher julga, o Homem racionaliza e a Mulher raciocina. E mais: mesmo esta distinção básica é feita porque este artigo não foi escrito por uma Mulher.
Porque é que aquilo que o Homem pensa que a Mulher é, é o oposto daquilo que a Mulher é, se cada Homem conhece de perto pelo menos uma Mulher? Porque o Português, para mal dele, julga sempre que a Mulher «dele» é diferente de todas as outras mulheres (um pouco como também acha, e faz gala disso, que ele é igual a todos os homens). A Mulher dele é selvagem mas as outras são mansas. A Mulher dele é fogo, ciúme, argúcia, domínio, cuidado. As outras são todas mais tépidas, parvas, galinhas, boazinhas, compreensíveis.
Ora a Mulher Portuguesa é tudo menos «compreensiva». Ou por outra: compreende, compreende perfeitamente, mas não aceita. Se perdoa é porque começa a menosprezar, a perder as ilusões, e a paciência. Para ela, a reação mais violenta não é a raiva nem o ódio – é a indiferença. Se não se vinga não é por ser «boazinha» – é porque acha que não vale a pena.
A Mulher Portuguesa, sobretudo, atura o Homem. E o Homem, casca grossa, não compreende o vexame enorme que é ser aturado, juntamente com as crianças, o clima e os animais domésticos. Aturar alguém é o mesmo que dizer «coitadinho, ele não passa disto…» No fundo não é mais do que um ato de compaixão. A Mulher Portuguesa tem um bocado de pena dos Homens. E nisto, convenhamos, tem um bocado de razão.
O que safa o Homem, para além da pena, é a Mulher achar-lhe uma certa graça. A Mulher não pensa que este achar-graça é uma expressão superior da sua sensibilidade – pelo contrário, diverte-se com a ideia de ser oriundo de uma baixeza instintiva e pré-civilizacional, mas engraçada. Considera que aquilo que a leva a gostar de um Homem é uma fraqueza, um fenómeno puramente neuro-vegetativo ou para-simpático – enfim, pulsões alegres ou tristemente irresistíveis, sem qualquer valor.
E chegamos a outra característica importante. É que a Mulher Portuguesa, se pudesse cingir-se ao domínio da sua inteligência e mais pura vontade, nunca se meteria com Homem nenhum. Para quê? Se já sabe o que o Homem é? Aliás, não fossem certas questões desprezíveis da Natureza, passa muito bem sem os homens. No fundo encara-os como um fumador inveterado encara os cigarros: «Eu não devia, mas…» E, como assim é, e não há nada a fazer, fuma-os alegremente com a atitude sã e filosófica do «Que se lixe».
Homens, em contrapartida, não podiam ser mais dependentes. Esta dependência, este ar desastrado e carente que nos está na cara, também vai fomentando alguma compaixão da parte das mulheres. A Mulher Portuguesa também atura o Homem porque acha que «ele sozinho, coitado; não se governava». O ditado «Quem manda na casa é ela, quem manda nela sou eu» é uma expressão da vacuidade do machismo português. A Mulher governa realmente o que é preciso governar, enquanto o homem, por abstração ou inutilidade, se contenta com a aparência idiota de «mandar» nela. Mas ninguém manda nela. Quando muito, ela deixa que ele retenha a impressão de mandar. Porque ele, coitado, liga muito a essas coisas. Porque ele vive atormentado pelo terror que seria os amigos verificarem que ele, na realidade, não só na rua como em casa não «manda» absolutamente nada. «Mandar» é como «enviar» – é preciso ter algo para mandar e algo ao qual mandar. Esses algos são as mulheres que fazem.
O Homem é apenas alguém armado em carteiro. É o carteiro que está convencido que escreveu as cartas todas que diariamente entrega. A Mulher é a remetente e a destinatária que lhe alimenta essa ilusão, porque também não lhe faz diferença absolutamente nenhuma. Abre a porta de casa e diz «Muito obrigada». É quase uma questão de educação.
A imagem da «Mulher Portuguesa» que os homens portugueses fabricaram é apenas uma imagem da mulher com a qual eles realmente seriam capazes de se sentirem superiores. Uma galinha. Que dizer de um homem que é domador de galinhas, porque os outros animais lhe metem medo?
Na realidade, A Mulher Portuguesa é uma leoa que, por força das circunstâncias, sabe imitar a voz das galinhas, porque o rugir dela mete medo ao parceiro. Quando perdem a paciência, ou se cansam, cuidado. A Mulher portuguesa zangada não é o «Agarrem-me senão eu mato-o» dos homens: agarra mesmo, e mata mesmo. Se a Padeira de Aljubarrota fosse padeiro, é provável que se pusesse antes a envenenar os pães e ir servi-los aos castelhanos, em vez de sair porta fora com a pá na mão.
Miguel Esteves Cardoso, in ' A Causa das Coisas '
O pior defeito do Homem português é achar-se melhor e mais capaz que a Mulher. A maior qualidade da Mulher Portuguesa é não ligar nada a essas crassas generalizações, sabendo perfeitamente que não é verdade. Eis a primeira grande diferença: o Português liga muito à dicotomia Homem/Mulher; a Portuguesa não. O Português diz «O Homem isto, enquanto a Mulher aquilo». A Portuguesa diz «Depende». A única distinção que faz a Mulher Portuguesa é dizer, regra geral, que gosta mais dos homens do que das mulheres. E, como gostos não se discutem, é essa a única generalização indiscutível.
A Mulher Portuguesa é o oposto do que o Homem Português pensa. Também nesta frase se confirma a ideia de que o Homem pensa e a Mulher é, o Homem acha e a Mulher julga, o Homem racionaliza e a Mulher raciocina. E mais: mesmo esta distinção básica é feita porque este artigo não foi escrito por uma Mulher.
Porque é que aquilo que o Homem pensa que a Mulher é, é o oposto daquilo que a Mulher é, se cada Homem conhece de perto pelo menos uma Mulher? Porque o Português, para mal dele, julga sempre que a Mulher «dele» é diferente de todas as outras mulheres (um pouco como também acha, e faz gala disso, que ele é igual a todos os homens). A Mulher dele é selvagem mas as outras são mansas. A Mulher dele é fogo, ciúme, argúcia, domínio, cuidado. As outras são todas mais tépidas, parvas, galinhas, boazinhas, compreensíveis.
Ora a Mulher Portuguesa é tudo menos «compreensiva». Ou por outra: compreende, compreende perfeitamente, mas não aceita. Se perdoa é porque começa a menosprezar, a perder as ilusões, e a paciência. Para ela, a reação mais violenta não é a raiva nem o ódio – é a indiferença. Se não se vinga não é por ser «boazinha» – é porque acha que não vale a pena.
A Mulher Portuguesa, sobretudo, atura o Homem. E o Homem, casca grossa, não compreende o vexame enorme que é ser aturado, juntamente com as crianças, o clima e os animais domésticos. Aturar alguém é o mesmo que dizer «coitadinho, ele não passa disto…» No fundo não é mais do que um ato de compaixão. A Mulher Portuguesa tem um bocado de pena dos Homens. E nisto, convenhamos, tem um bocado de razão.
O que safa o Homem, para além da pena, é a Mulher achar-lhe uma certa graça. A Mulher não pensa que este achar-graça é uma expressão superior da sua sensibilidade – pelo contrário, diverte-se com a ideia de ser oriundo de uma baixeza instintiva e pré-civilizacional, mas engraçada. Considera que aquilo que a leva a gostar de um Homem é uma fraqueza, um fenómeno puramente neuro-vegetativo ou para-simpático – enfim, pulsões alegres ou tristemente irresistíveis, sem qualquer valor.
E chegamos a outra característica importante. É que a Mulher Portuguesa, se pudesse cingir-se ao domínio da sua inteligência e mais pura vontade, nunca se meteria com Homem nenhum. Para quê? Se já sabe o que o Homem é? Aliás, não fossem certas questões desprezíveis da Natureza, passa muito bem sem os homens. No fundo encara-os como um fumador inveterado encara os cigarros: «Eu não devia, mas…» E, como assim é, e não há nada a fazer, fuma-os alegremente com a atitude sã e filosófica do «Que se lixe».
Homens, em contrapartida, não podiam ser mais dependentes. Esta dependência, este ar desastrado e carente que nos está na cara, também vai fomentando alguma compaixão da parte das mulheres. A Mulher Portuguesa também atura o Homem porque acha que «ele sozinho, coitado; não se governava». O ditado «Quem manda na casa é ela, quem manda nela sou eu» é uma expressão da vacuidade do machismo português. A Mulher governa realmente o que é preciso governar, enquanto o homem, por abstração ou inutilidade, se contenta com a aparência idiota de «mandar» nela. Mas ninguém manda nela. Quando muito, ela deixa que ele retenha a impressão de mandar. Porque ele, coitado, liga muito a essas coisas. Porque ele vive atormentado pelo terror que seria os amigos verificarem que ele, na realidade, não só na rua como em casa não «manda» absolutamente nada. «Mandar» é como «enviar» – é preciso ter algo para mandar e algo ao qual mandar. Esses algos são as mulheres que fazem.
O Homem é apenas alguém armado em carteiro. É o carteiro que está convencido que escreveu as cartas todas que diariamente entrega. A Mulher é a remetente e a destinatária que lhe alimenta essa ilusão, porque também não lhe faz diferença absolutamente nenhuma. Abre a porta de casa e diz «Muito obrigada». É quase uma questão de educação.
A imagem da «Mulher Portuguesa» que os homens portugueses fabricaram é apenas uma imagem da mulher com a qual eles realmente seriam capazes de se sentirem superiores. Uma galinha. Que dizer de um homem que é domador de galinhas, porque os outros animais lhe metem medo?
Na realidade, A Mulher Portuguesa é uma leoa que, por força das circunstâncias, sabe imitar a voz das galinhas, porque o rugir dela mete medo ao parceiro. Quando perdem a paciência, ou se cansam, cuidado. A Mulher portuguesa zangada não é o «Agarrem-me senão eu mato-o» dos homens: agarra mesmo, e mata mesmo. Se a Padeira de Aljubarrota fosse padeiro, é provável que se pusesse antes a envenenar os pães e ir servi-los aos castelhanos, em vez de sair porta fora com a pá na mão.
Miguel Esteves Cardoso, in ' A Causa das Coisas '
No Amor começa-se sempre a zero - Miguel Esteves Cardoso
Fazer um registo de propriedade é chato e difícil mas fazer
uma declaração de amor ainda é pior. Ninguém sabe como. Não há minuta. Não há
sequer um despachante ao qual o premente assunto se possa entregar. As declarações de amor têm de ser feitas pelo próprio. A experiência não serve de
nada — por muitas declarações que já se tenham feito, cada uma é completamente
diferente das anteriores. No amor, aliás, a experiência só demonstra uma coisa:
que não tem nada que estar a demonstrar coisíssima nenhuma. É verdade —
começa-se sempre do zero. Cada vez que uma pessoa se apaixona, regressa à
suprema inocência, inépcia e barbárie da puberdade. Sobem-nos as bainhas das
calças nas pernas e quando damos por nós estamos de calções. A experiência não
serve de nada na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas
no meio de um incêndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que faria uma
delas virar-se para a outra e dizer: «Ouve lá, tu que tens experiência de
queimaduras do primeiro grau...»
Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode
com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrículos, Deus
Nosso Senhor carrega no grande botão «CLEAR» que mandou pôr na consola
consoladora dos nossos corações. Esquece-se tudo. Que garfo usar com o peixe.
Que flores comprar. Que palavras dizer. Que gravata com que raio de casaco
hei-de usar? Sabe-se nada. Nicles.
Olha-se para as mãos e parece uma cena de transformação dum
filme de lobisomens — de onde outrora havia aqueles dedos tão ágeis e
pianistas, brotam dez abortos de polegares.
E o vinho entorna-se só de pensar
nisso. E as solas dos sapatos passam a atrair magneticamente todos os
excrementos caninos da cidade. E a voz que era toda FM Estéreo da Comercial
quando vai para dizer «Gosto muito de ti» fica repentinamente Abelha Maia.
Tenha-se 17 ou 71 anos, regressa-se automaticamente aos 13 —
à terrível idade do Clearasil e das sensações como que de absorção. Quem se
apaixona dá mesmo saltos no ar e diz «Uau!» quando o Pai deixa usar a pasta de
dentes dele. Qual «ternura dos quarenta», qual bota da tropa cheia de minhocas!
O amor é sempre uma anormalidade que provoca graves atrasos mentais.
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| Miguel Esteves Cardoso Créditos de Imagem |
Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'
A promiscuidade tira a vontade - Miguel Esteves Cardoso
O que é a experiência? Nada. É o número dos donos que se
teve. Cada amante é uma coronhada. São mais mil no conta-quilómetros. A
experiência é uma coisa que amarga e atrapalha. Não é um motivo de orgulho. É
uma coisa que se desculpa. A experiência é um erro repetido e re-repetido até à
exaustão. Se é difícil amar um enganador, mais difícil ainda é amar um
enganado.
Desengane-se de vez a rapaziada. Nenhuma mulher gosta de um
homem «experiente». O número de amantes anteriores é uma coisa que faz um
bocadinho de nojo e um bocadinho de ciúme. O pudor que se exige às mulheres não
é um conceito ultrapassado — é uma excelente ideia. Só que também se devia
aplicar aos homens. O pudor valoriza. O sexo é uma coisa trivial. É por isso
que temos de torná-lo especial. Ir para a cama com toda a gente é pouco
higiénico e dispersa as energias. Os seres castos, que se reprimem e se
guardam, tornam-se tigres quando se libertam. E só se libertam quando vale a
pena. A castidade é que é «sexy». Nos homens como nas mulheres. A promiscuidade
tira a vontade.
Uma mulher gosta de conquistar não o homem que já todas
conquistaram, saquearam e pilharam, mas aquele que ainda nenhuma conseguiu
tocar. O que é erótico é a resistência, a dificuldade e a raridade. Não é a
«liberdade», a facilidade e a vulgaridade. Isto parece óbvio, mas é o contrário
do que se faz e do que se diz. Porque será escandaloso dizer, numa época
hippificada em que a virgindade é vergonhosa e o amor é bom por ser «livre»,
que as mulheres querem dos homens aquilo que os homens querem das mulheres? Ser
conquistador é ser conquistado. Ninguém gosta de um ser conquistado. O que é
preciso conquistar é a castidade.
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| Miguel Esteves Cardoso Créditos de Imagem |
Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República
Portuguesa'
O que distingue um amigo verdadeiro - Miguel Esteves Cardoso
Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo
que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos
amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor:
amigo. A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar
e a atenção que se pode dar — todas estas coisas são finitas e têm de ser
partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É
preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já
de si pequena (nós) por muitas pessoas.
Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser
escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém
de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A
tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda
a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não
se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser
amigo de alguém, chega a ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta.
Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É
uma coisa à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação. A amizade é vista, e é
verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma
mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser
humano um «amigo». Todos conhecemos o género — é o «gajo porreiro», que se «dá
bem com toda a gente». E o «amigalhaço». E tem, naturalmente, dezenas de amigos
e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices,
correligionários, colegas e outras coisas começadas por c.
Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos.
Os nossos inimigos, ao menos, não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um
amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar
conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para
mais, pífio e arrependido. Para se ser um bom amigo, têm de herdar-se, de
coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa. E fácil estar sempre
do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser
capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão. O amigalhaço, em
contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou
muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana.» Como se pode
ser amigo de um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do
mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus. A
lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil
ser inteiramente leal, mas tem de se ser.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'
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| Miguel Esteves Cardoso Créditos de Imagem |
Pensa, é Grátis de Joaquin Lorente
O livro "Pensa, É Grátis" de Joaquin Lorente consiste essencialmente em
84 ideias para dinamizar o talento.
Estes pequenos textos são de leitura
fácil, em muitos casos divertida e sem dúvida uma lufada de ar fresco para a
mente.
Eu optei por ler, seguindo a sugestão de
um formador com quem tive o prazer de me cruzar - António Paraíso - uma ideia
por dia.
Achei o livro tão estimulante que,
decidi ler uma ideia todas as manhas, enquanto tomava o meu
pequeno-almoço, fazia-me despertar e começar o dia com corpo e mente
devidamente alimentados.
Adorei a experiência, de tal maneira que,
o livro continua na minha mesa-de-cabeceira e sempre que me apetece,
relei-o aleatoriamente uma ideia.
Sugiro vivamente, é um livro que estimula
a criatividade, sentido critico e sem dúvida nos mostra que, pensar
é muitíssimo bom e, como se não bastasse, ainda é grátis!
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| Pensa É Grátis |
Ninguém tem pena das pessoas felizes de Miguel Esteves Cardoso
Ninguém tem pena das pessoas felizes. Os Portugueses adoram
ter angústias, inseguranças, dúvidas existenciais dilacerantes, porque é isso
que funciona na nossa sociedade. As pessoas com problemas são sempre mais
interessantes. Nós, os tontos, não temos interesse nenhum porque somos felizes.
Somos felizes, somos tontaços, não podemos ter graça nem salvação. Muitos
felizardos (a própria palavra tem um soar repelente, rimador de «javardo»)
vêem-se obrigados a fingir a dor que deveras não sentem, só para poderem
«brincar» com os outros meninos.
É assim. Chega um infeliz ao pé de nós e diz que não sabe se
há-de ir beber uma cerveja ou matar-se. E pergunta, depois de ter feito o
inventário das tristezas das últimas 24 horas: «E tu? Sempre bem disposto,
não?». O que é que se pode responder? Apetece mentir e dizer que nos morreu uma
avó, que nos atraiçoou uma namorada, que nos atropelaram a cadelinha ali na
estrada de Sines.
E, no entanto, as pessoas felizes também sofrem muito.
Sofrem, sobretudo, de «culpa». Se elas estão felizes, rodeadas de pessoas
tristes, é lógico que pensem que há ali qualquer coisa que não bate certo. As
infelizes acusam sempre os felizes de terem a culpa. É como a polícia que vai à
procura de quem roubou as joias e chega à taberna e prende o meliante com ar
mais bem disposto. Em Portugal, se alguém se mostra feliz é logo suspeito de
tudo e mais alguma coisa. «Julgas que é por acaso que aquele marmanjo anda tão
bem disposto?», diz o espertalhão para outro macambúzio. É normal andar muito
em baixo, mas há gato se alguém andar nem que seja só um bocadinho «em cima».
Pensam logo que é «em cima» de alguém.
Ser feliz no meio de muita gente infeliz é como ser muito
rico no meio de um bairro-de-lata. Só sabe bem a quem for perverso.
Infelizmente, a felicidade não é contagiosa. A alegria, sim,
e a boa disposição, talvez, mas a felicidade, jamais. Porque a felicidade não
pode ser partilhada, não pode ser explicada, não tem propriamente razão. Não se
pode rir em Portugal sem que pensem que se está a rir de alguém ou de qualquer
coisa. Um sorriso que se sorria a uma pessoa desconhecida, só para desabafar, é
imediatamente mal interpretado. Em Portugal, as pessoas felizes sofrem de ser
confundidas com as pessoas contentes.
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| Miguel Esteves Cardoso - MEC Créditos de Imagem |
Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'
Para este Natal, 15 ideias de presentes económicos e úteis
Para este Natal, 15 ideias de presentes económicos e úteis
Em época de crise os presentes supérfluos, as grandes extravagâncias e o dinheiro mal gasto estão completamente fora de questão. Elaborem a vossa lista de compras de Natal atempadamente, façam bem as contas e percam algum tempo a analisar as melhores opções, promoções e campanhas. As palavras de ordem são: presentes úteis e económicos!
1. Conjunto de Sabonetes, de preferência, no momento da escolha opte por uma marca portuguesa, assim estará também a contribuir para o crescimento da nossa economia e afinal temos algumas das melhores marcas do mundo neste sector.
2. Livro, existem um sem número de opções, livros técnicos que ajudarão a que o presenteado se atualize, as bibliografias são também uma alternativa excelente e os romances são uma opção clássica e sempre em voga. Um livro é um excelente presente para todas as idades.
3. Agenda, facilmente encontram soluções para todos os gostos e orçamentos.
4. Caderno/Notebook, existem sugestões giríssimas no Artemix, são cadernos feitos à mão com encadernações elegantes e originais.
5. Gel de Banho da Body Shop, o aroma chocolate é uma delícia
6. Baton da Kiko, existem sempre promoções e a relação qualidade preço é boa, têm uma linha de batons camel, caramelo e tom da pele que são uma tentação
7. Porta-Chaves, andamos normalmente com o mesmo porta-chaves durante séculos, um novo pode ser uma agradável surpresa
8. Garrafa de Licor Beirão, é um licor Nacional acessível, e que nunca está a mais numa garrafeira
9. Garrafa de Amêndoa Amarga, existem várias marcas por onde escolher, a Amarguinha é uma das mais conceituadas
10. Clássica Caixa de Bombons Arcádia, porque ninguém resiste a uma boa caixa de chocolates
11. Lata de Biscoitos Gourmet
12. Frasco de Mel Gourmet
13. Lancheira, hoje quase todos levamos o almoço para o trabalho e uma lancheira apresentável pode ser um excelente presente
14. Creme Hidratante para as mãos, usamos imenso, é um presente unissexo e no Inverno faz imensa falta por causa do imenso frio
15. Luvas quentinhas, fazem sempre jeito e podem encontrar opções para todas as carteiras
Top 5 Presentes de Natal para os Avós
Porque nesta altura nunca sabemos o que devemos oferecer aos nossos queridos Avós!
Já oferecemos de um tudo: desde camisolas de lã, camisas para o Avô, camisa de dormir para a Avó, chinelos de quarto, livros e mais livros, lenços e afins são, mais do mesmo.
Esgotamos todo um stock de ideias, por isso, resolvi partilhar algumas sugestões de presentes para este Natal, porque os Avós são Pais duas vezes, é muito bom podermos mimá-los, o Natal é só mais uma desculpa para o fazermos.
1. A Almofada Caroço de Cereja da Ricoxete
| Almofada Caroço de Cereja da Ricoxete |
A Almofada Caroço de Cereja da Ricoxete depois de aquecida cerca de 1 minuto no micro-ondas pode fazer verdadeiros milagres para as dores nas articulações, e demais maleitas. É uma delicia para as dores nas costas e substitui na perfeição a tradicional de água quente.
Esta almofada é feita de artesanal e surge envolvida num projeto que, para além de um cariz social, é uma prova de que em tempos difícieis há sempre que acredite que, se fizermos coisas boas, recebemos coisas boas, a este efeito chamamos: Ricoxete!
Preço Médio: 26€
2. Cofret Ribeira
O Cofret Ribeira da Antiga Barbearia de Bairro é composto por pincel de barba, sabonete e creme de barbear.O pincel de barba, assim como os restantes elementos do cofret são totalmente produzidos em Portugal. Com cabo em madeira, lacado tradicional e esmalte, os pêlos do pincel são em cerda imitação de texugo. O sabonete tem 150 gramas e para além de uma imagem de muito bom gosto, oferece um aroma citrino amadeirado e fresco.
Quanto ao Creme de Barbera de 125 ml apresenta-se numa tradicional bisnaga, senda a espuma que produz especialmente cremosa e delicada.
Preço Médio: 39€
3. Cadeira de Realizador Artesanal
A Cadeira de Realizador da Doodle Chair é uma cadeira artesanal construída em robusta madeira de eucalipto. Pelos materiais usados, esta cadeira de realziador totalmente feita à mãe, pode ser lixada e tratada sempre que for necessário. É ainda possível personalizar a cadeira com diferentes patrões e cores.
Preço Médio: 35€
4. Receita e Ingredientes para Gomas!
As Avós adoram aprender coisas novas e mimar os netos, então porque não lançar-lhes o desafio e perguntar: Avô, sabes fazer gomas?
Com os ingredientes especiais da Loja Aladina - Receitas de Génio, será fácil, fácil! Deliciem-se!
Preço Médio: 12€
5. Pote de Mel
O Pote de Mel da marca portuguesa Lagar do Mel é divinal, e verdade seja dita, Natal sem mel, não é Natal. Para além disso, todas as Avós gostam de nos surpreender com um chá bem quentinho com mel. Esta iguaria nacional pode ser usada nos muitos doces que as Avós adoram preparar nesta época. Um presente simples, útil e económico.
Preço Médio: 7€
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| Lagar do Mel |
Estas são apenas algumas sugestões, o ideal será não cair na tentação de fazermos de fazermos as compras no último momento, nesse caso o resultado será, dinheiro mal gasto e presentes sem qualquer serventia.
Mostrar carinho pelos nossos Avós é também mostrar que nos preocupamos em oferecer-lhes algo de que realmente gostem. Não deixem de o fazer!
Boas compras ou melhor, "compras sim, mas com moderação"!
Para a Minha Mulher de Miguel Esteves Cardoso
Desde que a Maria João casou (oficialmente) comigo há treze
anos, damos por nós a casarmo-nos um com o outro, voluntária ou
involuntariamente, várias vezes por dia.
Vou contar só uma. Esta semana, quando voltávamos da praia,
a Maria João estava a pentear-se e deu-me uns cabelos soltos para eu deitar
pela janela do carro. Tive ciúmes que alguém pudesse apanhar os lindos cabelos
dela e disse-lhe. Dei-lhes um beijinho e atirei-os ao vento. E a Maria João
disse: «Agora tenho eu ciúmes que alguém apanhe o cabelo com beijinhos teus».
Casámos um com o outro nesse momento. Já tínhamos casado
cinco vezes na praia. Casar é o que acontece quando duas pessoas descobrem que,
por estarem a fazer ou terem feito uma coisa grande ou pequena, são as duas
únicas pessoas no mundo. Todas as outras pessoas não podem fazer parte daquele
prazer. Aquele prazer só é possível para duas pessoas concretas: ela e eu.
À nossa volta casavam-se muitas outras pessoas, casando-se
mais por nós estarmos de fora, juntamente com todas as outras. Às vezes somos
nós os espectadores. Vemos outras pessoas a casarem-se: um homem a rir-se leva
uma mulher a rir-se nos braços pelo mar adentro e não a deixa cair até ela
pedir. Há cuidado, medo de desiludir, protecção, ternura e vontade de agradar.
Depressa percebemos que estão a rir-se juntos, de uma coisa a que só eles acham
graça, que é rirem-se os dois de uma mesma coisa.
Casa comigo hoje, Maria João, meu amor. Vez após vez.
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| Miguel Esteves Cardoso Créditos de Imagem |
Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (30 Set 2013)'
Alimentar o Amor de Miguel Esteves Cardoso
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre
à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada
começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade
do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da
luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso
respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e
o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a
actividade de manter.
Em Portugal quase tudo se resume a começos e a
encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o
aparato. À mínima comichão aparece uma «iniciativa», que depois não tem
prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.
É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os
criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos
continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.
É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior.
Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma
paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas — sejam
amores ou tradições, monumentos ou amizades — é o que distingue os seres
humanos. O nascimento e a morte não têm valor — são os fados da animalidade.
Procriar é bestial. O que é lindo é educar.
Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo
porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e,
apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade.
É tão fácil ser rebelde. Fica tão bem ser irreverente. Criar
é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro. É o que
eu sou. Estas crónicas provam-no. Mas queria que mostrassem também que não é
isso que eu prezo e que não é só isso que eu sou.
Se eu fosse forte, seria um verdadeiro conservador. Mudar é
um instinto animal. Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano.
Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo
do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de
bibliotecários, de antologistas, de jardineiros.
Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer
casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar
é um trabalho custoso. As coisas têm uma tendência horrível para morrer.
Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo
mais bonito do que «salvaguardar»? É fácil uma pessoa bater com a porta,
zangar-se e ir embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha
vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. É por esta e por outras
que eu lhe dedico este livro, que escrevi à sombra dela.
Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da
animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não
há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao
contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é
gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver,
continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil
é continuar.
Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República
Portuguesa'
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| Miguel Esteves Cardoso e Maria João Créditos de Imagem |
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